quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

TV prejudica desenvolvimento intelectual


"Archives of Pediatrics & Adolescent Medicina", uma publicação da Associação Médica Americana (JAMA), acaba de pôr em questão as facilidades que põem, as famílias, seus filhos para ver a televisão. A publicação inclui, em seu último número, três estudos (Universidades Johns Hopkins, Stanford e Washington, Estados Unidos; e Otago, Nova Zelândia) que alertam sobre o grave perigo que, para o desenvolvimento cognitivo (referente ao conhecimento) e escolar, tem o consumo excessivo de televisão, sobretudo se está instalada nos quartos das crianças.
 
A literatura científica sobre as relações entre infância e consumo televisivo obteve o beneplácito sobre as conseqüências da "dependência" da televisão com respeito à obesidade ou o sobrepeso infantil e, portanto, com um maior risco para sofrer enfermidades cardiovasculares ou respiratórias em idade adulta. Relacionou a telespecção (relativo ao ato do telespectador assistir) de cenas violentas com uma maior agressividade. Mas restava observar como influencia no rendimento escolar e no desenvolvimento cognitivo. O resultado, na ausência de ser confirmado totalmente em outros estudos posteriores, é concludente: é negativo.

Está claro que a televisão não somente é fonte de problemas. Utilizada adequadamente pode converter-se em um bom elemento educativo. Mas utilizada abusivamente se transforma em um elemento nocivo. O estudo das universidades norte-americanas de Stanford e Johns Hopkins é claro: as crianças de 8 anos que têm televisão em seus quartos, têm notas mais baixas nas matérias relacionadas com matemáticas, leitura ou linguagem. Ter televisão própria no quarto não somente pode significar riscos de que os menores vejam os programas que não lhes permitem seus pais, mas que, além disso, abusam dela. O diz o estudo: aquelas crianças sem receptor em seu quarto a viam, em média, 10,7 horas semanais; os quais o tinham junto à sua cama, 12,8 horas. O estudo acrescenta um elemento a mais: o computador. Os quais tinham PC em seu quarto e não televisão conseguiram melhores resultados nas provas, superiores aos quais somente tinham acesso ao computador em um espaço comum.

Mas ver a televisão muito também contém o risco de abandonar os estudos e não alcançar um grau superior. Assim o assegura uma pesquisa da Universidade de Otago (Nova Zelândia) que, em resumo, assegura que quanto menor é o consumo televisivo na infância e adolescência, maior é a possibilidade de terminar estudos universitários. Por contra, quanto mais se vê, maior risco existe de não passar dos estudos primários.

O terceiro estudo, da Universidade de Washington em Seattle (EE.UU.), avaliou a capacidade de compreensão em leitura e matemáticas comparando-la com as horas que menores de três anos passavam diante do receptor e o tempo que utilizaram até os cinco anos. Assim se detectou que ver a TV antes dos três anos se vinculava à piores resultados cognitivos aos seis e sete, mas também que ver programas do tipo "Vila Sésamo" (seriado infantil) desde os três aos cinco anos se relacionava com melhores resultados em leitura e memória à curto prazo, mas não em matemáticas ou compreensão verbal. Um dos co-autores, Dimitri Christakis, publicou há um ano um estudo onde se advertia que o consumo de televisão por crianças pode afetar seu desenvolvimento cerebral, provocando transtornos de atenção.

Diante das três pesquisas, a "Archives of Pediatrics & Adolescent Medicina" publica um editorial na qual reprocha (critica) os autores dos três estudos que tiveram se limitado a quantificar as horas de consumo sem centrarem-se em que programas vêem as crianças, apesar de existir estudos que confirmam a bondade de determinada programação. O comentário qualifica a televisão como "o elefante na vida dos lares norte-americanos... A média de telespecção de televisão é a maior de todas as atividades, exceto dormir". Os editorialistas consideram necessários, ainda reconhecendo-los positivamente, mais estudos e um maior acompanhamento dos menores selecionados neles, mas dão uma recomendação aos pais: que ofereçam aos seus filhos bons programas, com conteúdo educativo apropriado para sua idade, porque estes "representam uma ferramenta de valor para estimular o desenvolvimento cognitivo das crianças".

Dois médicos espanhóis consideram que os estudos estão bem propostos, mas que daí a concluir que a televisão é má existe um salto muito grande, pelo qual são necessárias maiores pesquisas. Francisco Javier Lavilla, especialista da Clínica Universitária de Navarra, acredita que "tornam público um tema no qual nós, a maioria, estamos de acordo". Não obstante, assegura que se bem que sobre os efeitos negativos da televisão quanto à hábitos de vida como a obesidade e o sedentarismo, ou a agressividade, existe unanimidade, no terreno no qual se movem estas três pesquisas "há maior discussão, não se pode deixar claro que a criança que vê a televisão tem menor rendimento acadêmico".

O professor de Pediatria e responsável deste serviço do Complexo Hospitalar Universitário de Santiago de Compostela, Rafael Tojo, acredita que "estamos entrando em um cenário que permite observar que a televisão, junto à efeitos educativos positivos, pode ser uma fonte de problemas". Tojo opina que os três estudos estão realizados por grupos "prestigiosos" mas que seus resultados "têm que ser fragmentados (divididos) por fatores ambientais e por grupos de população, estrutura familiar... Por todos aqueles elementos que possam alterar-los".

Tojo chama a atenção, sobretudo, diante do estudo da Nova Zelândia, já que há vinte meses a mesma equipe apresentou resultados sobre consumo televisivo e efeitos sobre a saúde infantil, advertindo de que aumentava a prevalência da obesidade, afetava negativamente os níveis de colesterol e diminuía a capacidade cardiorrespiratória (por sedentarismo), além de incitar ao consumo de tabaco. Por isso, acredita que este estudo é "uma chamada de atenção", ao "induzir a pensar que o uso excessivo da televisão tem efeitos negativos sobre a saúde e um maior risco de inatividade em todos os níveis".

A Espanha cada vez se parece mais aos EE.UU. e não somente nas cifras de obesidade. O que até há duas décadas parecia impossível de comparar, agora se converteu em uma realidade; que as crianças dedicam quase tanto tempo à televisão como ao colégio. Duas pesquisas o confirmam. A primeira, um estudo da Confederação de organizações de donas de casa, consumidores e usuários, que utiliza dados da Sofres (a consultora de audiências televisivas mais importante da Espanha). Este, cifra em 218 minutos diários (três horas e 38 minutos) o tempo que os menores de 14 anos dedicam a ver a televisão. A cifra contrasta (se opõe) com os 300 minutos que têm, como média, de atividade letiva diária em seus colégios. A segunda pesquisa corresponde ao Conselho Audiovisual da Catalunha. Nele, se assegura que as crianças dentre 4 e 12 anos dedicam mais tempo a assistir à televisão que a assistir à aula. O tempo de telespecção é de 19 horas semanais, que sobem à 30 se se contabiliza o uso de video-consoles (vídeo-games) e computadores. Ambos estudos enfatizam o alto consumo infantil dos programas de horário noturno.

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